domingo, 24 de maio de 2015

8 - O Músico Maravilhoso

Era uma vez um músico maravilhoso, que entrou sozinho numa floresta, e pensava em tudo e em todas as coisas, e quando se cansou de pensar, ele disse para si mesmo:
— “O tempo passa muito lentamente aqui na floresta, eu preciso buscar alguém para me fazer companhia.” Então, ele colocou a rabeca nos ombros, e tocava tão bem que a música ecoava por toda a floresta. Não passou muito tempo e um lobo veio saltitando pelo matagal em direção a ele.
— “Ah, aí vem um lobo! Mas eu não estava pensando num lobo!” disse o músico, mas o lobo chegou mais perto e disse para o músico:
— “Ah, meu querido músico, como o senhor toca bonito! Eu gostaria de aprender a tocar também!”
— “Você aprende rápido”, respondeu o músico, “deves apenas fazer tudo que eu mandar.”
— “Oh, músico,” disse o lobo, “eu te obedecerei assim como um aluno obedece ao seu professor.” O músico pediu para que o lobo o seguisse, e quando eles tinham caminhado juntos uma parte do caminho, eles chegaram até um velho carvalho o qual era oco por dentro, e tinha uma fenda no meio do tronco.
— “Veja,” disse o músico, “se você quer aprender a tocar rabeca, coloque as tuas patas dianteiras nesta abertura da árvore.” O lobo obedeceu, mas o músico rapidamente pegou uma pedra e num só golpe prendeu as duas patas do lobo que ele foi forçado a ficar ali como se fosse um prisioneiro.
— “Fique aí até eu voltar novamente,” disse o músico, e foi embora.
Depois de algum tempo ele disse para si mesmo:
— “O tempo está começando a passar muito devagar aqui na floresta, eu preciso buscar alguem para me fazer companhia,” e ele pegou a sua rabeca e começou a tocar novamente na floresta.
Pouco tempo depois apareceu uma raposa se rastejando pelas árvores em direção a ele.
— “Ah, uma raposa vem vindo ali!” disse o músico. “Mas eu não estava pensando numa raposa.” A raposa chegou perto dele e disse:
— “Oh, meu bom músico, como você toca bonito! Eu gostaria de aprender a tocar também!”
— “Você aprende rápido,” disse o músico, “deves apenas fazer tudo que eu mandar.”
— “Oh, músico,” disse a raposa, “eu te obedecerei assim como um aluno obedece ao seu professor.” 
O músico pediu para que a raposa o seguisse, e quando eles tinham caminhado uma parte do caminho, eles chegaram num lugar, com mato alto dos dois lados. Lá, o músico parou, e de um lado inclinou um jovem pé de avelã até o chão, e colocou seu pé no topo do pé de avelã, e depois ele inclinou uma árvore ainda nova do outro lado também, e disse:
— “Agora, minha raposinha, você irá aprender alguma coisa, me dê a sua pata dianteira esquerda.”
A raposa obedeceu, e o músico apertou a sua pata no ramo esquerdo da árvore.
— “Raposinha,” disse ele, “agora me dê a tua pata direita”, e ele a amarrou no ramo direito da árvore. Depois de verificar que elas estavam bem amarradas, ele soltou os galhos, e os arbustos saltaram no ar, e jogaram pro alto a pequena raposa, de modo que ela ficou pendurada e se debatendo no ar.
— “Fique aí até eu voltar,” disse o músico, e foi embora.
Novamente ele disse para si mesmo:
— “O tempo está começando a passar muito devagar aqui na floresta, eu preciso buscar alguem para me fazer companhia,” e ele pegou a sua rabeca e o som se propagava por toda a floresta.
Então, uma pequena lebre saltou em direção a ele.
— “Ah, uma lebre vem vindo ali!” disse o músico. “Mas eu não estava pensando numa lebre.” A lebre chegou perto dele e disse:
— “Oh, meu bom músico, como você toca bonito! Eu gostaria de aprender a tocar também!”
— “Você aprende rápido,” disse o músico, “deves apenas fazer tudo que eu mandar.”
— “Oh, músico,” disse a lebre, “eu te obedecerei assim como um aluno obedece ao seu professor.”
O músico pediu para que a lebre o seguisse, e quando eles tinham andado uma parte do caminho, eles chegaram a um lugar aberto na floresta, onde havia um pé de faia. O músico amarrou uma corda ao longo ao redor do pescoço da lebre, e do outro lado ele amarrou na árvore.
— “Agora, pequena lebrinha, bem depressa, dê vinte voltas ao redor da árvore!”, exclamou o músico, e a pequena lebrinha obedeceu, e quando ela tinha dado vinte voltas, ela tinha enrolado a corda vinte vezes ao redor do tronco da árvore, e a pequena lebrinha ficou presa, e ela puxava com toda força que podia, ela apenas conseguia que a corda apertasse ainda mais o seu delicado pescocinho.
— “Fique aí até eu voltar,” disse o músico e foi embora.
Enquanto isso, o lobo havia empurrado e puxado e mordido a pedra que o prendia, e se debateu tanto que ele conseguiu libertar uma das patas e com mais alguma força ele consegue soltar a outra pata da fenda da árvore. Todo furioso e sem controle vai atrás do músico pois o lobo queria fazer pedaçinhos dele.
Quando a raposa viu o lobo correndo, ela começou a lamentar, e chorava com todas as suas forças:
— “Irmão lobo, venha me ajudar, o músico me traiu!”
O lobo puxou com força a pequena árvore, mordeu a corda no meio, e libertou a raposa, que saiu com ele para se vingar do músico. Eles encontraram a lebre que estava presa, a quem eles também libertaram, e então, os três saíram juntos atrás do inimigo comum.
O músico mais uma vez tocou a sua rabeca a medida que ele seguia o seu caminho, e desta vez ele teve mais sorte. O som da rabeca chegou aos ouvidos de um pobre lenhador, que imediatamente, mesmo que ele não quisesse, deixou o que estava fazendo, colocou a sua machadinha debaixo do braço para ouvir o músico que tocava.
— “Finalmente, o companheiro que eu procurava,” disse o músico, “pois, eu estava procurando um ser humano, e não um animal selvagem.”
E ele começou a tocar com tanta beleza e musicalidade que o pobre lenhador parou como se estivesse enfeitiçado, e o seu coração pulava de alegria. E estava ele tocando, quando o lobo, a raposa e a lebre apareceram, e tiveram certeza de que o músico tinha um plano em mente.
Então, o lenhador levantou a sua machadinha e se colocou diante do músico, como se quisesse dize
— “Aquele que tocar no músico, tenha cuidado, porque ele terá de se ver comigo também!” Então, os animais ficaram assustados e correram de volta para a floresta. O músico, todavia, tocou mais uma vez para o lenhador como prova de gratidão e continuaram andando.



7 - O Bom Negócio

Era uma vez um camponês que tinha levado a sua vaca para a feira, e a vendeu por sete táleres. No caminho de volta para casa ele tinha de passar por um lago, e já de longe ele ouvia os sapos gritando: “Iquá, quá, quá, quá!” — “Bem,” disse ele para si mesmo, “eles não sabem o que estão dizendo, são sete táleres que eu recebi não quatro.” Quando ele entrou na água, o camponês gritou para eles: — “Criaturas estúpidas que vocês são! Vocês não sabem de nada! São sete táleres e não quatro.”
Os sapos, no entanto, continuavam a mesma ladainha, “Iquá, quá, quá, quá!” — “O quê, vocês não acreditam, eu posso mostrar na frente de vocês,” e ele tirou o dinheiro do bolso e contou os sete táleres, levando-se em conta que vinte e quatro grosches equivalem a um táler. Os sapos, todavia, sem saber o que ele dizia, continuam dizendo “Iquá, quá, quá, quá!” — “O quê, exclamou o camponês que já estava ficando zangado, — “já que vocês acham que sabem mais do que eu, contem vocês mesmos,” e jogou todo o dinheiro na água.
Ele ficou parado e ficou esperando até que tivessem terminado de contar e lhe devolvessem o dinheiro de novo, mas os sapos ficaram imóveis e gritavam sem parar: “Iquá, quá, quá, quá!” e além disso, não jogaram o dinheiro de volta para ele. Ele ainda esperou um bom tempo até que a noite chegou e ele foi obrigado a ir para casa.
Então, ele insultou os sapos dizendo: — “Escuta aqui, seus espirradores de água, seus cabeças gordas, seus olhos esbugalhados, vocês tem bocas grandes e podem berrar até estourarem os seus ouvidos, mas vocês não sabem contar sete tálares! Vocês acham que eu vou ficar esperando aqui até quando terminarem? E com isso ele foi embora, mas os sapos continuavam gritando “Iquá, quá, quá, quá!” depois que ele se foi, até que ele chegou em casa muito furioso.
Passado algum tempo ele comprou uma nova vaca, a qual ele matou, e fez as contas que se ele vendesse a carne por um preço bom, ele poderia ganhar o equivalente ao que duas vacas valeriam, e usaria ainda o couro dela na troca. Quando então ele chegou na cidade com a carne, uma grande matilha de cães estava reunida na frente do portão, e eram chefiados por um cachorro galgo, que pulou na carne, meteu o focinho nela e latindo: “Uau, uau, uau.”
Como ele não parava de latir, o camponês disse para ele: — “Sim, sim, eu sei muito bem o que você está dizendo “uau, uau, uau,” porque você quer um pedaço de carne, mas eu teria um prejuízo se eu desse um pedaço para você.” O cachorro, todavia, não respondia nada, somente “uau, uau, uau.” — “Você promete não devorar tudo, então, e você se responsabiliza pelos teus amigos?”
“Uau, uau, uau.”, dizia o cachorro. — “Bem, se você insiste, eu vou te dar um pedaço, eu te conheço bem, e sei que você é quem manda, mas eu lhe digo, dentro de três dias eu preciso receber o dinheiro, caso contrário, você vai se ver comigo, e você deve entregar o dinheiro lá em casa.” E assim ele descarregou a carne e virou as costas, e os cachorros pularam em cima dela e latiam alto: “uau, uau, uau.”
O camponês, ouvindo-os de longe, dizia consigo mesmo: — “Escute só, todos eles queriam um pedaço, mas o grandalhão é o principal responsável por tudo.”
Três dias haviam se passado, e o camponês pensou: — “Hoje o dinheiro estará no meu bolso,” e ficou muito satisfeito. Mas ninguém aparecia para lhe dar o dinheiro. — “Será que não dá para confiar em ninguém hoje em dia,” pensou ele, e finalmente ele perdeu a paciência, e foi até a cidade procurar o açougueiro e exigir o seu dinheiro. O açougueiro achou que era uma brincadeira, mas o camponês dizia: — “Não estou brincando, eu quero o meu dinheiro! Por acaso, o cachorro grande não trouxe para você uma vaca inteirinha que eu matei há três dias atrás?”
Então o açougueiro ficou nervoso, pegou um cabo de vassoura e expulsou o camponês. — “Espere um pouquinho,” pensou o camponês, “deve haver ainda justiça no mundo!” e foi para o palácio do rei e solicitou uma audiência. Ele foi levado diante do rei, o qual estava sentado ao lado da sua filha, e lhe perguntou que prejuízo ele havia sofrido. — “O senhor não imagina,” disse ele, os sapos e os cachorros tomaram de mim o que me pertence, e o açougueiro me retribuiu com vassouradas,” e relatou com todos os detalhes tudo o que havia acontecido. Então, a filha do rei começou a achar tudo muito engraçado e o rei disse para ele: — “Não posso te fazer justiça nesse caso, mas você receberá a minha filha como esposa, -- em toda a sua vida ela nunca riu desse jeito como riu agora, e eu prometi que ela se casaria com aquele que conseguisse fazê-la sorrir. Você deve agradecer a Deus porque você é um cara de sorte!”
— “Oh,” respondeu o camponês, “não posso me casar com ela, eu já tenho uma esposa, e ela já é demais para mim, quando eu vou para casa, é tudo tão ruim que é como se eu tivesse uma esposa em cada canto da casa.” Então, o rei se ofendeu, e disse: — “ Você é um imbecil.” — “Ah, senhor rei,” respondeu o camponês, “o que você pode esperar de uma vaca, que não fosse um bife?” — “Chega,” disse o rei, “vou te dar uma outra recompensa. Vai-te embora agora e volta dentro de três dias, e então, terás quinhentos bem contados.”
Quando o camponês saía pelo portão, o sentinela disse: — “Você conseguiu fazer a filha do rei sorrir, então, certamente você receberá alguma coisa boa.” — “Sim, é o que eu também acho,” respondeu o camponês, “quinhentos bem contados me serão dados.” — “Escuta,” disse o soldado, “me dê um pouco disso. O que você vai fazer com todo esse dinheiro?”
— “Como é para você,” disse o camponês, “você receberá duzentos, dentro do prazo de três dias, apresente-se diante do rei, e peça a ele que isso te seja entregue.” Um judeu, que estava parado ali, e tinha ouvido a conversa, foi correndo atrás do camponês, o segurou pelo casaco, e disse: — “Oh, maravilha! que garoto de sorte que você é! Eu troco para você, eu troco para você com pequenas moedas, porque você precisa das notas graúdas dos táleres?” — “Judeu,” disse o camponês, “você ainda pode receber trezentos, me dê esse valor agora mesmo em moedas, dentro de três dias a partir de hoje, você poderá receber esse valor pelas mãos do rei.”
O judeu dava pulos de alegria diante do lucro, e trouxe todo o valor em grosche muito usado, onde três dos ruins valeriam dois bons. Três dias haviam decorridos, e de acordo com a ordem do rei, o camponês compareceu diante do rei. — “Tire o casaco dele,” disse o rei, “e ele receberá os quinhentos.” — “Ah,” disse o camponês, “eles não me pertencem mais, eu dei de presente duzentos deles para o sentinela, e trezentos o judeu trocou para mim, então, por direito, não tenho direito a mais nada.”
Nesse momento, o soldado e o judeu entraram e reclamaram o que eles tinham ganhado do camponês, e eles receberam as quinhentas chicotadas bem contadas. O soldado suportou com paciência pois já tinha sofrido antes, mas o judeu falou arrependido: — “Oh não, seriam estes os tálares que eu deveria receber?” O rei não conseguia para de rir para o camponês, e toda a sua raiva foi embora, e ele disse: — “Como você já recebeu a tua recompensa antecipadamente, eu te darei uma compensação em troca. Vá até a minha câmara de tesouro e pegue todo o dinheiro que quiser.”
Não precisou que o rei falasse duas vezes para o camponês, e ele encheu os seus bolsos enormes com tudo o que coube dentro. Depois ele foi até uma estalagem, e contou todo o dinheiro. O judeu foi escondido atrás dele e ouvia que ele resmungava sozinho, — “O desgraçado do rei me trapaceou afinal, porque ele mesmo não poderia ter-me dado o dinheiro, e então, eu saberia o quanto tenho? Quem pode me dizer agora, se o que eu tive a sorte de colocar nos meus bolsos é suficiente ou não? — “Meu Deus do céu!”, disse o judeu para si mesmo, “esse homem está falando de modo desrespeitoso do nosso senhor, o rei, eu vou correndo lá para informá-lo, e então, eu receberei uma recompensa, e ele será punido também.”
Quando o rei ouviu o que o camponês tinha dito, ele ficou furioso, e exigiu que o judeu fosse e trouxesse o blasfemador até ele. O judeu correu até onde o camponês estava, — “Você precisa ir imediatamente até o rei, nosso senhor, com as roupas que você estiver usando.”
— “Sei de uma coisa melhor que essa,” respondeu o camponês, “preciso conseguir um casaco novo primeiro. Você acha que um homem com tanto dinheiro no bolso se apresenta diante do rei com um casaco velho e rasgado?”
O judeu, quando ele viu que o camponês não se mexia porque não tinha outro casaco, e como ele temia que a fúria do rei esfriasse, e ele próprio perderia a sua recompensa, e o camponês não seria punido, ele disse: — “Eu mesmo, como prova da minha verdadeira amizade, te empresto um casaco por algum tempo. O que as pessoas não fazem por amor!” O camponês deu-se por satisfeito, vestiu o casaco do judeu, e saiu em companhia dele.
Orei repreendeu o camponês porque ele havia falado mal de acordo com o que o judeu tinha informado. — “Ah,” disse o camponês, “o que um judeu fala é sempre mentira -- jamais se ouviu que um judeu falasse a verdade! Esse ordinário é capaz de dizer que eu estou usando o casaco dele.”
— “O que você disse?” berrou o judeu. “Este casaco não é meu? Eu emprestei ele a você por pura amizade, para que você pudesse se apresentar diante do rei?” Quando o rei ouviu isso, ele disse: — “O judeu com certeza está me enganando ou a nós dois, ou a mim ou ao camponês,” e novamente mandou que lhe aplicassem novas e pesadas chibatadas. O camponês, todavia, voltou com um casaco novo, com dinheiro no bolso, e dizia para si mesmo: — “Desta vez eu acertei!”



6 - João, o Fiel

Era uma vez um rei muito velho e que estava doente, e pensava consigo mesmo:
— “Eu estou deitado naquele que será o meu leito de morte.” Então, ele disse. — “Digam a João, o fiel, para que venha até aqui.” João, o fiel, era seu criado favorito, e era assim chamado, porque durante toda a sua vida ele tinha sido muito sincero para o rei. Quando então ele chegou na beirada da cama do rei, este lhe disse:
— “João, meu mais fiel criado, sinto que o meu fim está se aproximando, e não tenho nenhuma vontade, exceto com relação ao meu filho. Ele ainda é muito jovem, e nem sempre sabe como se conduzir. Se tu me prometeres que vais ensinar a ele tudo o que ele deve saber, e ser para ele um pai adotivo, eu poderei fechar meus olhos em paz.” Então, João, o fiel, respondeu:
— “Eu não o abandonarei, e o servirei com fidelidade, ainda que isso me custe a própria vida.” Diante disto, o velho rei disse:
— “Agora posso morrer consolado e em paz.”
Depois ele acrescentou:
— “Depois que eu morrer, quero que mostres todo o castelo para o meu filho, todas os quartos, corredores, os cofres, e todos os tesouros que estão dentro dos cofres, mas o último quarto, que fica na longa galeria, onde está o retrato da princesa do Palácio de Ouro, tu não deves mostrar a ele. Se ele ver aquele quadro, ele irá se apaixonar loucamente por ela, e irá cair desmaiado, e passará por grandes riscos por causa dela, portanto, deves impedir que ele faça isso.” E quando João, o fiel, prometeu mais uma vez para o velho rei que ele faria o que o rei havia determinado, este não falou mais nada, mas deitou sua cabeça no travesseiro e morreu.
Depois que o velho rei tinha sido levado para a sua sepultura, João, o fiel, disse ao jovem rei tudo o que ele tinha prometido ao seu pai no leito de morte, e disse:
— “Vou fazer tudo o que o seu pai me pediu, e serei fiel para ti assim como fui fiel para ele, mesmo que isso me custe a vida.” Quando o período de luto havia passado, João, o fiel, disse ao jovem rei:
— “É chegada a hora de veres tudo o que herdaste. Mostrarei para ti o palácio de teu pai.” Então, ele levou o jovem para conhecer todos os lugares, acima e abaixo, e mostrou-lhe todas as riquezas, e os magníficos apartamentos, havendo somente um quarto que ele não abriu, aquele onde havia pendurado um perigoso retrato. O quadro, no entanto, era colocado de tal maneira que quando a porta abria você olhava direto para ele, e ele fora tão admiravelmente pintado que o quadro parecia que respirava e vivia, e não havia nada mais encantador nem mais maravilhoso no mundo.
O jovem rei, todavia, percebeu claramente que João, o fiel, sempre passava reto nesta porta, e disse
— “Porque você nunca abre esta porta para mim?
— “Há algo dentro dele,” respondeu, — “que iria te assustar muito.” Mas o rei continuou:
— “Eu já vi todo o palácio, e eu quero saber o que há neste quarto também”, e ele foi e tentou abrir a porta a força. Então, João, o fiel, o deteve por trás e disse:
— “Eu prometi ao teu pai, antes dele morrer, que tu não verias o que há neste quarto, pois, isso traria o maior infortúnio para ti e para mim.”
— “Ah, não,” retrucou o jovem rei, — “Se eu não entrar dentro dele, isso será com certeza a minha destruição. Eu não conseguirei descansar nem de dia nem de noite até que o tenha visto com meus próprios olhos. Eu não sairei daqui agora até que abras esta porta.”
Então, João, o fiel, viu que não adiantava nada, e com o coração angustiado e depois de muito soluçar, pegou a chave que estava no meio do grande molho. Assim que ele abriu a porta, ele entrou primeiro, e pensou que ficando de frente para o jovem rei ele conseguiria esconder o retrato para que o rei não conseguisse vê-lo de frente, mas de que serviu isso? O rei ficou na ponta dos pés e viu o retrato por cima dos ombros do fiel servidor.
E quando ele viu o retrato da donzela, que era tão magnífico e que brilhava com ouro e pedras preciosas, ele caiu desmaiado no chão. João, o fiel, o levantou, levou para sua cama, e pensou com tristeza:
— “O infortúnio cairá sobre nós, Senhor Deus, qual será o desfecho de tudo isso?” Então, ele o reanimou com vinho, até que o jovem rei voltou a si novamente. As primeiras palavras que o jovem rei falou foram:
— “Ah, que lindo retrato! De quem era ele?
— “Aquele era retrato da princesa do Palácio de Ouro, respondeu João, o fiel. Então, o rei continuo
— “O meu amor por ela é tão grande, que se todas as folhas de todas as árvores fossem línguas, elas não conseguiriam declará-lo. Eu daria a minha vida para conquistá-la. Tu és o meu criado mais fiel, tu deves me ajudar.”
O criado fiel pensou consigo mesmo durante longo tempo em como resolver esse problema, pois, era muito difícil conseguir uma audiência com a filha do rei. Finalmente, ele encontrou uma maneira, e disse ao rei:
— “Tudo o que ela tem em torno dela é de ouro — mesas, cadeiras, pratos, copos, travessas, e mobiliário de casa."
Dentre os teus tesouros encontram-se cinco toneladas de ouro, permita que alguns dos ourives do reino trabalhem todos os tipos de vasos e utensílios, e façam todos os tipos de pássaros, de animais selvagens e de animais exóticos, de tal maneira que possa agradá-la, e nós iremos lá com essas peças e tentaremos a nossa sorte.”
O rei ordenou que todos os ourives fossem trazidos até ele, e eles tiveram de trabalhar dia e noite até que finalmente os objetos mais esplendorosos foram preparados. Quando tudo já estava arrumado a bordo do navio, João, o fiel, vestiu a roupa de mercador, e o rei foi obrigado a fazer o mesmo para que ele se tornasse praticamente irreconhecível. Então, eles navegaram pelos mares, e continuaram navegando até que chegaram à cidade onde vivia a princesa do Palácio de Ouro.
João, o fiel, pediu ao jovem rei para que ficasse atrás no navio e o esperasse. — “Talvez eu consiga trazer a princesa comigo”. Disse o rei:
— “Portanto, verifique se tudo está em ordem, mande expor todos os objetos de ouro e providencie para que todo navio seja decorado.” Então, o fiel criado colocou em seu avental todos os tipos de peças de ouro, saiu do navio e caminhou direto para o palácio real. Quando ele entrou no pátio do palácio, uma linda garota estava ao lado do poço com dois baldes em suas mãos, tirando água com eles.
E quando ela havia se virado para levar a água cintilante, ela viu o estrangeiro e lhe perguntou quem ele era. Então, ele respondeu:
— “Eu sou um mercador,” e abriu o seu avental, e deixou que ela olhasse tudo. Então, ela exclamo
— “Oh, que lindos objetos de ouro!” E colocou os baldes no chão e olhou os utensílios de ouro um de cada vez. Então, a garota disse:
— “A princesa precisa ver isso, ela adora tanto ver objetos de ouro, que comprará tudo o que o senhor tiver.”
Ela o pegou pela mão e o levou até o andar superior, pois, esta era a camareira da princesa. Quando a filha do rei viu os utensílios, ela ficou muito feliz e disse:
— “Elas são tão bem trabalhadas, que eu comprarei de ti todas elas.” Mas, João, o fiel, disse:
— “Eu sou apenas o criado de um rico mercador. As coisas que eu tenho aqui não são nada quando comparadas com aquelas que o meu amo trouxe em seu navio. São os objetos mais lindos e mais valiosos que já foram fabricados em ouro.”
Ela queria que tudo fosse trazido até ela, mas o fiel criado respondeu:
— “Há tantas peças como essas aí que eu levaria muitos dias para trazê-las até aqui, e tantas salas seriam necessárias para serem mostradas, que o teu palácio não seria grande o bastante.” Então, a curiosidade e a ansiedade dela aumentaram ainda mais, até que ela disse finalmente:
— “Leve-me até o navio, eu mesma irei até lá, para contemplar os tesouros do teu amo.”
Diante disto, João, o fiel, ficou muito satisfeito, e a conduziu até o navio, e quando o rei a viu, ele percebeu que a sua beleza era muito maior que aquela que o retrato pretendia representar, e não conseguiu pensar em mais nada, exceto que o seu coração iria explodir. Então, ela entrou no navio, e o rei a conduziu para dentro. João, o fiel, todavia, permaneceu atrás com o piloto, e ordenou para que o navio zarpasse imediatamente, dizendo:
— “Icem todas as velas, para que possamos voar como um pássaro no ar.”
No interior do navio, todavia, o rei mostrava a ela todos os recipientes de ouro, cada um deles, e também os animais selvagens e os animais exóticos. Muitas horas se passaram enquanto ela ficou olhando tudo, e diante do encanto que vivia, ela não percebeu que o navio estava indo embora. Quando ela finalmente olhou a última peça, ela agradeceu ao mercador e quis ir para casa, mas quando chegou na lateral do navio, ela viu que estavam no mar profundo longe do continente, e o navio avançava apressadamente a todo vapor.
— “Ah,” gritou ela, assustada, — “Fui traída! Eu sendo levada embora e caí nas garras de um mercador — Quero morrer!” O rei, todavia, pegou a sua mão, e disse:
— “Eu não sou mercador. Sou rei, e de origem não menos nobre do que tu, e se eu te conduzi até aqui com sutileza, isso foi por causa do grande amor que tenho por ti. A primeira vez que eu vi o teu retrato, eu caí desfalecido no chão.” Quando a princesa do Palácio de Ouro ouviu aquilo, ela se consolou, e o seu coração se inclinou para ele, de modo que de bom grado ela concordou em ser sua esposa.
Aconteceu, todavia, enquanto estavam navegando sobre o mar profundo, que João, o fiel, que estava sentado na parte dianteira do barco, compondo música, observou três corvos no céu, que vinham voando em direção a eles. Diante disto, ele parou de tocar e escutou o que eles estavam dizendo um para o outro, pois disso ele entendia bem. Um deles exclamou:
— “Oh, lá vai ele levando a princesa do Palácio de Ouro para casa.”
— “Sim,” respondeu o segundo, — “mas ele não a conquistou ainda.” Disse o terceiro:
— “Mas ele a conquistou sim, ela está sentada ao lado dele no navio.” Então, o primeiro começou novamente, e exclamou:
— “Mas de que adianta isso para ele? Quando eles chegarem em terra um cavalo alazão irá saltar de encontro a ele, e o príncipe irá querer montá-lo, mas se ele fizer isso, o cavalo irá fugir com ele, e voará pelos céus com ele, e ele nunca mais verá a princesa.” Falou o segundo:
— “Mas não existe uma saída?”
— “Oh, sim, se alguém subir nele imediatamente, e pegar a arma que deverá estar no coldre, e matar o cavalo com a arma, o jovem rei será salvo. Mas, quem sabe disso? E aquele que o souber, e disser isso a rei, será transformado em pedra dos pés até os joelhos.” Então, disse o segundo:
— “Eu sei mais do que isso: ainda que o cavalo seja morto, o jovem rei não ficará com a sua noiva. Quando eles forem juntos para o castelo, uma roupa de núpcias muito bem trabalhada será colocada numa travessa, e parecendo como se tivesse sido tecida com ouro e prata; no entanto, não passará apenas de enxofre e pixe, e se ele vestir a roupa, ele sentirá queimaduras desde os ossos até a medula.” Disse o terceiro:
— “Mas será que não existe nenhuma saída?”
— “Oh, sim,” respondeu o segundo, — “se alguém usando luvas pegar a roupa e a lançar ao fogo e queimá-la, o jovem rei será salvo. Mas, de que adianta isso? Aquele que souber disso e dizer ao rei, metade do seu corpo se transformará em pedra dos joelhos até o coração.”
Então, disse o terceiro:
— “Estou sabendo de muito mais: mesmo que a roupa de núpcias seja queimada, o jovem rei ainda não ficará com a sua noiva. Depois do casamento, quando o baile começar e a jovem rainha estiver dançando, ela imediatamente ficará pálida e cairá como se estivesse morta, e se alguém não a socorrer e sugar três gotas de sangue do seu peito direito e cuspí-los novamente, ela morrerá. Mas, se alguém souber disso e o declarar, ele se transformará em pedra da coroa da sua cabeça até a sola dos seus pés.”
Quando os corvos haviam falado tudo isso, eles seguiram voando, e João, o fiel, havia compreendido tudo, mas daquele dia em diante ele ficou calado e triste, pois, se ele ocultasse do seu amo o que ele tinha escutado, este seria vítima do infortúnio, e se ele o revelasse ao rei, ele próprio deveria sacrificar a sua vida. Por fim, disse para si mesmo:
— “Salvarei o meu amo, mesmo que isso traga destruição para mim.”
Quando então, eles chegaram em terra, tudo aconteceu como tinha sido previsto pelos corvos, e um magnífico cavalo alazão saltou em direção a eles.
— “Bom,” disse o rei, — “ele me levará até o palácio, e ia montá-lo quando João, o fiel, entrou na frente do rei, saltou sobre o cavalo, pegou a arma que estava no coldre, e matou o cavalo.
Então, os outros que faziam parte da comitiva do rei, e que afinal de contas não gostavam de João, o fiel, gritaram:
— “Que vergonha, matar um lindo animal, que ia levar o rei para o palácio!” Mas o rei disse:
— “Fiquem tranquilos e deixem-no em paz, ele é João, o meu criado mais fiel, e sabe muito bem o que está fazendo!”
Eles foram para o palácio, e na entrada havia uma travessa, e nela estava a roupa de núpcias que parecia não ter sido trabalhada senão com ouro e prata.
O jovem rei caminhou em direção à roupa e ia pegá-la, quando João, o fiel, o empurrou para longe, pegou-a com as suas luvas, e levou-a imediatamente para o fogo e a queimou. Os outros da comitiva do rei começaram a murmurar, e disseram:
— “Vejam, agora ele está queimando a roupa nupcial do rei!” Mas o jovem rei disse:
— “Quem sabe o bem que ele está nos fazendo, deixem-no em paz, ele é João, o meu criado mais fiel.”
E o casamento foi solenemente realizado, o baile começou e a noiva também tomou parte dele, então João, o fiel, estava vigilante e olhava para o rosto dela, e de repente ela ficou pálida e caiu no chão, como se estivesse morta. Diante disto, o fiel servidor correu imediatamente até ela, e a socorreu e a carregou até seus aposentos — então, ele a colocou na cama, se ajoelhou e sugou três gotas de sangue do seu lado direito do peito, e cuspiu tudo.
Imediatamente ela respirou novamente e se reanimou, mas o jovem rei viu isto, e desconhecendo porque João, o fiel, havia feito isso, ficou bravo e exclamou:
— “Levem-no para o calabouço.” Na manhã seguinte João, o fiel, foi condenado, e conduzido para as galeras, e quando ele estava de pé, e ia ser executado, ele falou:
— “Todo aquele que está para morrer, lhe é permitido fazer um último pedido antes da conclusão da pena, posso também reivindicar esse direito?”
— “Sim,” respondeu o rei. Então, disse João, o fiel.
— “Estou sendo condenado injustamente, e sempre te fui sincero,” e ele contou como ele tinha ouvido a conversa entre os corvos quando estavam no mar, e como ele tinha sido obrigado a fazer todas aquelas coisas para salvar o seu amo. Então, o rei exclamou:
— “Oh, João, meu criado mais fiel. Me perdoe, me perdoe — tirem-no daí.” Mas João, o fiel, disse a última palavra e caiu sem vida e se transformou numa pedra.
Então, o rei e a rainha ficaram muito angustiados, e o rei disse:
— “Ah, como eu recompensei mal uma grande fidelidade!” e ordenou que a figura de pedra fosse levada dalí e colocada em seus aposentos ao lado de sua cama. E sempre que ele olhava para a estátua ele chorava e dizia:
— “Ah, se eu pudesse restituir-te a vida novamente, João, meu criado mais fiel.” Algum tempo se passou e a rainha deu à luz a um casal de gêmeos, os dois filhos cresceram rápidos e eram toda sua alegria.
Uma vez, quando a rainha tinha ido na igreja e as duas crianças estavam sentadas ao lado do pai, este, cheio de pesar olhou novamente para a figura de pedra, suspirou e disse:
— “Ah, se eu pudesse restituir-te a vida novamente, João, meu criado mais querido.” Então, a pedra começou a falar e disse:
— “Podes restituir-me a vida novamente, se usares para esse propósito aquilo que é mais caro para ti.” Então, o rei exclamou:
— “Daria tudo que tenho no mundo para ti.” A pedra continuou:
— “Se cortares a cabeça de teus dois filhos, com tuas próprias mãos, e me espargires com o sangue deles, a minha vida será restituída.”
O rei ficou chocado quando ouviu que ele mesmo deveria tirar a vida de seus filhos queridos, mas ele se recordou da grande fidelidade de seu criado João, e de como este havia morrido por ele, sacou da sua espada, e com suas próprias mãos cortou as cabeças das crianças. E depois que ele espargiu a pedra com o sangue deles, a vida lhe foi restituída, e João, o fiel, estava mais uma vez diante dele a salvo e com saúde. Ele disse para o rei:
— “A tua coragem não ficará sem recompensa, e pegou as cabeças das crianças, e as colocou de volta novamente, e esfregou os ferimentos com o sangue delas, e elas ficaram curadas novamente, e começaram a pular, e sairam brincando como se nada tivesse acontecido.
Então, o rei ficou radiante de alegria, e quando ele percebeu que a rainha estava chegando, ele escondeu João, o fiel, e as duas crianças num grande armário. Quando ela entrou, ele disse a ela:
— “Estivestes rezando na igreja?
— “Sim,” respondeu ela — “mas eu tenho pensado constantemente em João, o fiel, e no infortúnio que caiu sobre ele por nossa culpa.” Então, ele disse:
— “Querida esposa, nós podemos restituir a vida dele novamente, mas isso nos custará nossos dois filhinhos, a quem devemos sacrificar.” A rainha ficou pálida e seu coração ficou cheio de pavor, mas ela disse:
— “Nós devemos isso a ele, pela sua grande fidelidade.” Então, o rei ficou radiante de alegria porque ela pensava como ele havia pensado, e foi e abriu o armário, e tirou de dentro dele João, o fiel, e os dois filhinhos, e disse:
— “Deus seja louvado, ele foi libertado, e nós temos nossos dois filhos novamente também,” e contou a ela tudo o que havia acontecido. Então, eles viveram juntos muito felizes até o fim de suas existências.