quarta-feira, 24 de junho de 2015

O Jardim das Flores Vivas Parte II - Capítulo II - Alice Através do Espelho

“De onde vem?” perguntou a Rainha Vermelha. “E para onde vai? Levante os olhos, fale direito e não fique girando os dedos o tempo todo.” Alice obedeceu a todas essas instruções e explicou, o melhor que pôde, que perdera seu caminho. “Não sei o que você quer dizer com seu caminho”, disse a Rainha; “todos os caminhos aqui pertencem a mim… mas afinal, por que veio até aqui?” acrescentou num tom mais afável. “Enquanto pensa no que dizer, faça reverências, poupa tempo.”
Alice ficou um pouco surpresa com aquilo, mas estava fascinada demais pela Rainha para duvidar dela. “Vou tentar quando voltar para casa”, pensou, “da próxima vez que estiver atrasada para o jantar.” 
“Já está na hora de você responder”, disse a Rainha, olhando seu relógio; “abra um pouco mais a boca quando fala, e diga sempre ‘Vossa Majestade’.” 
“Só queria ver como era o jardim, Vossa Majestade…” 
“Está bem”, disse a Rainha, dando-lhe tapinhas na cabeça, do que Alice não gostou nada, “se bem que, quando você diz ‘jardim’… já vi jardins que fariam este parecer um matagal.” 
Alice não se atreveu a contestar e continuou: “…e pensei em tentar chegar até o alto daquele morro…” 
“Quando você diz ‘morro’”, a Rainha interrompeu, “eu poderia lhe mostrar morros que a fariam chamar esse de vale.” 
“Não, não fariam”, disse Alice, surpresa por finalmente tê-la contestado: “um morro não pode ser um vale. Isso seria um absurdo…” 
A Rainha Vermelha sacudiu a cabeça. “Pode chamar de ‘absurdo’ se quiser”, disse, “mas já ouvi absurdos que fariam este parecer tão sensato quanto um dicionário!” 
Alice fez mais uma reverência, pois temia, pelo tom da Rainha, que estivesse um pouco ofendida. E as duas saíram andando em silêncio até chegar ao alto do pequeno morro. 
Por alguns minutos Alice ficou sem falar, olhando a região em todas as direções… e que região curiosa era aquela. Havia uma quantidade de riachinhos minúsculos cortando-a de lado a lado, e o terreno entre eles era dividido por uma porção de pequenas cercas verdes, que iam de riacho a riacho. 
“Veja só! Está demarcado exatamente como um grande tabuleiro de xadrez!” Alice disse por fim. “Deve haver algumas peças se mexendo em algum lugar… ah, lá estão!” acrescentou encantada, e seu coração começou a disparar de entusiasmo enquanto continuava. “É uma partida de xadrez fabulosa que está sendo jogada… no mundo todo… se é que isso é o mundo. Oh, como é divertido! Como eu gostaria de ser um deles. Não me importaria de ser um Peão, contanto que pudesse participar… se bem que, é claro, preferiria ser uma Rainha.” 
Ao dizer isso, olhou de rabo de olho, um tanto acanhada, para a verdadeira Rainha, mas sua companheira apenas sorriu amavelmente e observou: “É fácil arranjar isso. Você pode ser o Peão da Rainha Branca, se quiser, pois Lily é muito novinha para jogar; você está na Segunda Casa; quando chegar à Oitava Casa, será uma Rainha…” Exatamente nesse instante, sabe-se lá por quê, as duas começaram a correr. 
Alice nunca conseguiu entender direito, refletindo sobre isso mais tarde, como tinham começado: tudo que lembrava é que estavam correndo de mãos dadas, e a Rainha corria tão depressa que ela mal conseguia acompanhá-la. Mesmo assim, a Rainha não parava de gritar “Mais rápido! Mais rápido!”, mas Alice sentia que não podia ir mais rápido, embora não lhe sobrasse fôlego para dizer isso. 
O mais curioso nisso tudo era que as árvores e as outras coisas em volta delas nunca mudavam de lugar: por mais depressa que ela e a Rainha corressem, não pareciam ultrapassar nada. “Será que todas as coisas estão se movendo conosco?” pensou, atônita, a pobre Alice. E a Rainha pareceu lhe adivinhar os pensamentos, pois gritou “Mais rápido! Não tente falar!”. 
Não que Alice tivesse a menor intenção de fazer isso. Tinha a impressão de que nunca conseguiria falar de novo, tão sem fôlego estava ficando; mesmo assim, a Rainha gritava “Mais rápido! Mais rápido!” e a arrastava consigo. “Estamos chegando?” Alice conseguiu arquejar finalmente.
“Chegando!” a Rainha repetiu. “Ora, passamos por lá dez minutos atrás! Mais rápido!” E correram em silêncio por algum tempo, o vento assobiando nos ouvidos de Alice e, imaginou, quase lhe arrancando fora os cabelos. 
“Vamos! Vamos!” gritou a Rainha. “Mais rápido! Mais rápido!” E correram tão depressa que por fim pareciam deslizar pelo ar, mal roçando o chão com os pés, até que de repente, bem quando Alice estava ficando completamente exausta, pararam, e ela se viu sentada no chão, esbaforida e tonta. 
A Rainha a recostou contra uma árvore e disse gentilmente: “Pode descansar um pouco agora.” 
Alice olhou ao seu redor muito surpresa. “Ora, eu diria que ficamos sob esta árvore o tempo todo! Tudo está exatamente como era!” 
“Claro que está”, disse a Rainha, “esperava outra coisa?” 
“Bem, na nossa terra”, disse Alice, ainda arfando um pouco, “geralmente você chegaria a algum outro lugar… se corresse muito rápido por um longo tempo, como fizemos.” 
“Que terra mais pachorrenta!” comentou a Rainha. “Pois aqui, como vê, você tem de correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar. Se quiser ir a alguma outra parte, tem de correr no mínimo duas vezes mais rápido!” 
“Prefiro não tentar, por favor!” suplicou Alice. “Estou muito satisfeita de estar aqui… só que estou com tanto calor e com tanta sede!” 
“Sei do que você gostaria!” disse a Rainha bondosamente, tirando uma caixinha do bolso. “Aceita um biscoito?” 
Alice achou que seria pouco educado dizer “Não”, embora aquilo não fosse nem de longe o que queria. Pegou o biscoito e fez o possível para comê-lo: era sequíssimo, e pensou que nunca ficara tão engasgada em toda a sua vida. 
“Enquanto você se revigora”, disse a Rainha, “vou tirando as medidas.” E sacou uma fita métrica do bolso e pôs-se a medir o terreno e a fincar pequenas estacas aqui e ali. 
“Ao fim de dois metros”, disse, cravando uma estaca para marcar a distância, “eu lhe darei suas instruções… aceita mais um biscoito?” 
“Não, obrigada”, recusou Alice; “um foi o bastante!” 
“Matou a sede, espero”, disse a Rainha. 
Alice não soube o que responder, mas felizmente a Rainha não esperou resposta, continuando: “Ao fim de três metros vou repeti-las… para o caso de você as ter esquecido. Ao fim de quatro, vou dizer adeus. E ao fim de cinco, vou-me embora!” 
A essa altura tinha fincado todas as estacas, e Alice olhou-a com muito interesse enquanto ela voltava para a árvore e em seguida começava a caminhar lentamente ao longo da fila. 
Junto à estaca dos dois metros a Rainha virou o rosto e disse: “Um peão avança duas casas em seu primeiro movimento, como você sabe. Assim, você vai avançar muito rápido para a Terceira Casa… de trem, eu acho… e num instante vai se ver na Quarta Casa. Bem, essa casa pertence a Tweedledum e Tweedledee… a Quinta é quase só água… a Sexta pertence a Humpty Dumpty… Mas você não faz nenhum comentário?” 
“Eu… eu não sabia que devia fazer algum… bem nesse ponto”, Alice gaguejou. 
“Devia ter dito”, prosseguiu a Rainha em tom de grave censura, “‘é extremamente gentil da sua parte me falar tudo isto’… mas vamos supor que isso foi dito… a Sétima Casa é toda no bosque… contudo, um dos Cavaleiros lhe mostrará o caminho… e na Oitava Casa, nós, as Rainhas, estaremos juntas; é tudo festa e diversão!” Alice se levantou, fez uma reverência e se sentou de novo. 
Na estaca seguinte a Rainha se virou e, desta vez, disse: “Fale em francês quando a palavra em inglês para alguma coisa não lhe ocorrer… ande com as pontas dos pés para fora… e lembre-se de quem você é.” Não esperou que Alice fizesse uma reverência dessa vez, caminhando rápido para a outra estaca, onde se virou por um instante para dizer “Adeus” e correu para a seguinte. 
Como aquilo aconteceu, Alice nunca soube, mas exatamente ao chegar à última estaca, a Rainha desapareceu. Se sumiu no ar ou se correu veloz para o bosque (“e ela é capaz de correr muito rápido!” pensou Alice), não havia como saber, e Alice começou a se lembrar de que era um Peão e de que logo seria hora de se mover.




O Jardim das Flores Vivas Parte I - Capítulo II - Alice Através do Espelho

“EU VERIA O JARDIM MUITO MELHOR”, disse Alice para si mesma, “se pudesse chegar ao topo daquele morro, e cá está uma trilha que leva direto para lá… pelo menos — não, não tão direto…” (depois de seguir a trilha por alguns metros e dar várias viradas bruscas) “mas suponho que por fim chega lá. É interessante como se enrosca! Mais parece um saca-rolha que um caminho! Bem, esta volta vai dar no morro, suponho… não vai! Vai dar direto na casa de novo! Bem, neste caso vou tentar na direção contrária.”
E assim fez: ziguezagueando para cima e para baixo, e tentando volta após volta, mas sempre voltando para a casa, fizesse o que fizesse. Na verdade, certa vez, quando deu uma virada bem mais rápido que de costume, não pôde evitar uma trombada nela. “É inútil falar sobre isso”, disse Alice, olhando para a casa e fingindo estar discutindo com ela. “Não vou entrar ainda. Sei que deveria atravessar o espelho de novo… de volta à sala… e seria o fim de todas as minhas aventuras!” 
Assim, dando as costas para a casa com determinação, lá se foi mais uma vez pela trilha, decidida a avançar sem trégua até chegar ao morro. Por alguns minutos tudo correu bem e ela acabava de dizer “Desta vez realmente vou conseguir…” quando a trilha deu uma guinada repentina, chacoalhou (segundo a descrição que fez mais tarde), e no instante seguinte ela se viu de fato entrando porta adentro. 
“Oh, mas que azar. Nunca vi casa tão intrometida! Nunca!” 
No entanto, lá estava o morro, bem à vista, de modo que não havia outra coisa a fazer senão começar de novo. Dessa vez topou com um grande canteiro, orlado de margaridas, e um salgueiro crescendo no meio. 
“Ó Lírio-tigre!” chamou Alice, dirigindose a um que ondulava graciosamente ao vento, “gostaria que pudesse falar!” 
“Pois podemos”, falou o Lírio-tigre, “quando há alguém com quem valha a pena conversar.” 
Alice ficou tão espantada que perdeu a voz por um minuto; quase pôs o coração pela boca. Por fim, como o Lírio-tigre apenas continuava a balançar, falou de novo, numa voz tímida… quase um sussurro: “E todas as flores podem falar?” 
“Tão bem quanto você”, respondeu o Lírio-tigre. “E bem mais alto.” 
“Seria pouco delicado da nossa parte começar, sabe”, disse a Rosa, “e eu realmente estava me perguntando quando você falaria! Disse comigo: ‘O semblante dela me diz alguma coisa, embora não seja uma coisa inteligente!’ Apesar de tudo, você tem a cor certa, e isso já é meio caminho andado.” 
“Não me importo com a cor”, observou o Lírio-tigre. “Se pelo menos suas pétalas se encrespassem um pouco mais, tudo estaria bem com ela.” Não gostando de se ver criticada, Alice começou a fazer perguntas: 
“Não sentem medo às vezes de ficar plantados aqui fora, sem ninguém para cuidar de vocês?” 
“Há a árvore no meio”, disse a Rosa. “Para que mais ela serve?” 
“Mas o que poderia ela fazer se surgisse algum perigo?” perguntou Alice. 
“Abrir o berreiro!” gritou uma Margarida. “É por isso que os salgueiros são chamados chorões!”
“Você não sabia disso?” espantou-se outra Margarida, e então todas começaram a gritar ao mesmo tempo, até que o ar pareceu repleto de vozes esganiçadas. “Silêncio, todas vocês!” gritou o Lírio-tigre agitando-se arrebatadamente de um lado para outro, com frêmitos de excitação. “Sabem que não posso alcançá-las!” disse entre arquejos, inclinando a cabeça trêmula para Alice, “ou não se atreveriam a fazer isso.” 
“Não faz mal!” Alice disse num tom apaziguador; e curvando-se para as margaridas, que estavam recomeçando naquele instante, sussurrou: “Se não calarem a boca, eu as colho!” 
O silêncio foi imediato, e várias das margaridas cor-de-rosa ficaram brancas. 
“Muito bem”, falou o Lírio-tigre. “As margaridas são as piores. Quando uma fala, começam todas ao mesmo tempo, fazendo um alarido que deixa qualquer um murcho.” 
“Como é possível que vocês todos possam falar tão bem?” disse Alice, na esperança de melhorar o humor dele com um elogio. “Estive em muitos jardins antes, mas nenhuma flor podia falar.” 
“Ponha a mão na terra e sinta”, disse o Lírio-tigre. “Assim vai saber por quê.” 
Alice obedeceu. “É muito dura”, observou, “mas não sei o que uma coisa tem a ver com a outra.” “Na maioria dos jardins”, explicou o Lírio-tigre, “fazem os canteiros fofos demais… por isso as flores estão sempre dormindo.” Parecia uma excelente razão, e Alice gostou muito de ouvi-la. “Nunca pensei nisso antes!” disse. 
“Na minha opinião, você nunca pensa em coisa alguma”, disse a Rosa num tom bastante ríspido.
“Nunca vi ninguém com ar mais bronco”, comentou uma Violeta, tão de repente que Alice deu um pulo, pois ela não tinha falado antes. 
“Dobre sua língua!” exclamou o Líriotigre. “Como se você já tivesse visto alguém! Enfia a cabeça sob as folhas e fica lá roncando, até saber tão pouco do que se passa no mundo quanto um botão!”
“Há mais pessoas no jardim além de mim?” Alice perguntou, preferindo não levar em conta a última observação da Rosa. 
“Há uma outra flor no jardim que é capaz de andar como você”, disse a Rosa. “Pergunto-me como fazem isso… (“Você está sempre se espantando”, interrompeu o Lírio-tigre), “mas ela é mais folhuda que você.” 
“É parecida comigo?” Alice perguntou ansiosa, pois lhe ocorrera a ideia: “Há uma outra menininha em algum canto do jardim!” 
“Bem, tem a mesma forma desajeitada que você”, a Rosa disse, “mas é mais vermelha… e tem as pétalas mais curtas, acho.” 
“Tem as pétalas mais próximas, quase como uma dália”, o Lírio-tigre interrompeu; “não descaídas em redor como as suas.” 
“Mas isso não é culpa sua”, a Rosa acrescentou delicadamente. “Você está começando a fenecer, sabe… e nesse caso é impossível evitar que nossas pétalas fiquem um pouco desalinhadas.” 
Alice não gostou nada dessa ideia; assim, para mudar de assunto, perguntou: “Ela vem aqui de vez em quando?”
“Provavelmente logo a verá”, disse a Rosa. “É do tipo que tem nove espigas.” 
“Onde as usa?” Alice perguntou com certa curiosidade. 
“Ora, em volta da cabeça, é claro”, respondeu a Rosa. “O que me admirou foi que você não tivesse algumas também. Pensei que fosse a norma geral.” 
“Lá vem ela!” gritou a Esporinha. “Estou ouvindo os passos dela, chump, chump, chump, no cascalho!” 
Alice olhou em volta aflita e descobriu que era a Rainha Vermelha. “Como ela cresceu!” foi sua primeira observação. De fato: quando Alice a encontrara entre as cinzas, tinha só sete centímetros de altura… e cá estava, meia cabeça mais alta do que ela própria! 
“É o ar fresco que faz isso”, disse a Rosa, “temos um ar maravilhosamente puro aqui fora.” 
“Acho que vou ao encontro dela”, disse Alice, pois, embora as flores fossem bastante interessantes, sentiu que seria muito mais sensacional ter uma conversa com uma Rainha de verdade. 
“Isso você não vai conseguir”, disse a Rosa. “Eu a aconselharia a ir ao contrário.
” Como isso lhe soou absurdo, Alice não disse nada e partiu imediatamente em direção à Rainha Vermelha. Para sua surpresa, num instante a perdeu de vista e se viu entrando pela porta da frente de novo. 
Um pouco irritada, recuou e, depois de olhar para todos os lados à procura da Rainha (que finalmente avistou, bem longe dali), pensou que daquela vez podia tentar o estratagema de caminhar na direção oposta. 
Sucesso total. Não andara nem um minuto quando se viu cara a cara com a Rainha Vermelha, com o morro que tanto desejara alcançar bem à vista.



sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Casa do Espelho Parte I - Capítulo I - Alice Através do Espelho

UMA COISA ERA CERTA: a gatinha branca nada tivera a ver com aquilo; a culpa fora toda da gatinha preta. Pois no último quarto de hora a cara da gatinha branca estivera sendo lavada pela gata velha (o que, apesar de tudo, ela suportara bastante bem); como você vê, ela não teria podido meter sua patinha na travessura. 
Era assim que Dinah lavava a cara dos filhotes: primeiro, erguia o pobre bichano pela orelha com uma pata, depois, com a outra, esfregava-lhe a cara toda ao contrário, começando pelo focinho; e, neste momento mesmo, como disse, estava muito atarefada com a gatinha branca, que se mantinha bastante sossegada e tentando ronronar — sem dúvida sentindo que aquilo tudo era para o seu bem.
Mas a faxina da gatinha preta terminara mais cedo aquela tarde, e assim, enquanto Alice enroscava-se num canto da poltrona grande, meio conversando consigo mesma e meio dormindo, ela se esbaldava com a bola de lã que Alice tentara enovelar, rolando-a para cima e para baixo até desmanchá-la toda de novo; e lá estava a lã, espalhada sobre o tapete, cheia de nós e emaranhados, com a gatinha correndo no meio atrás do próprio rabo. 
“Oh, sua coisinha travessa!” exclamou Alice, agarrando-a e dando-lhe um beijinho para fazê-la compreender que estava frita. “Francamente, a Dinah devia ter lhe ensinado maneiras melhores! Você devia, Dinah, sabe que devia!” acrescentou, com um olhar de censura para a gata velha e falando no tom mais zangado de que era capaz… Em seguida escalou de novo a poltrona, levando a gatinha e a lã consigo, e pôs-se a enrolar a bola de novo. Mas o trabalho não rendia muito, pois conversava o tempo todo, às vezes com a gatinha, às vezes consigo mesma. Kitty ficou sentada muito recatadamente em seu joelho, fingindo acompanhar o progresso do enovelamento, e de vez em quando esticando uma pata e tocando delicadamente a bola, como a dizer que teria prazer em ajudar, se pudesse. 
“Sabe que dia é amanhã, Kitty?” começou Alice. “Você adivinharia, se tivesse ficado na janela comigo… só que a Dinah estava fazendo sua toalete, por isso você não pôde. Fiquei olhando os meninos catarem gravetos para a fogueira — e é preciso muito graveto, Kitty! Só que ficou tão frio, e nevava tanto, que eles tiveram de parar. Não faz mal, Kitty, nós vamos ver a fogueira amanhã.” Nesse ponto Alice passou duas ou três voltas da lã em torno do pescoço da gatinha, só para ver como ficaria: isso provocou uma balbúrdia, pois o novelo rolou para o chão e metros e metros dele se desenrolaram de novo. 
“Sabe, fiquei tão zangada, Kitty”, Alice continuou assim que estavam confortavelmente instaladas de novo, “quando vi toda a travessura que você aprontou que estive a ponto de abrir a janela e jogá-la na neve! E teria sido merecido, minha traquinas querida! Que tem a dizer em sua defesa? Agora não me interrompa!” continuou, dedo em riste. “Vou lhe dizer todas as suas faltas. Número um: reclamou duas vezes enquanto a Dinah estava lavando seu rosto esta manhã. Ora, isso você não pode negar, Kitty: eu ouvi! Que está dizendo?” (fingindo que a gatinha estava falando). “A pata dela entrou no seu olho? Bem, a culpa é sua, por ficar de olhos abertos: se os fechasse, apertando bem, isso não teria acontecido. Não, não me venha com outras desculpas, ouça! Número dois: você puxou Snowdrop pelo rabo bem na hora que eu tinha posto o pires de leite diante dela! Ah, você estava com sede, é? Como sabe que ela não estava com sede também? Agora, número três: você desenrolou a lã inteirinha quando eu não estava olhando!”
“São três faltas, Kitty, e você não foi castigada por nenhuma delas. Sabe que estou acumulando todos os seus castigos para daqui a duas quartas-feiras… Imagine se tivessem acumulado todos os meus castigos!” ela continuou, mais para si mesma que para a gatinha. “Qual seria o resultado no fim de um ano? Seria mandada para a prisão, suponho, quando o dia chegasse. Ou… deixe-me ver… se cada castigo fosse ficar sem um jantar, então, quando o dia terrível chegasse, eu teria de ficar sem cinquenta jantares de uma vez! Bem, não me importaria tanto! Antes passar sem eles que comê- los!”
“Está ouvindo a neve contra as vidraças, Kitty? Soa tão agradável e suave! Como se alguém estivesse beijando a janela toda do lado de fora. Será que a neve ama as árvores e os campos que beija tão docemente? Depois ela os agasalha, sabe, com um manto branco; e talvez diga: ‘Durmam, meus queridos, até o verão voltar.’ E quando eles despertam no verão, Kitty, se vestem todos de verde, e dançam… onde quer que o vento sopre… oh, isso é muito lindo!” exclamou Alice, soltando o novelo da lã para bater palmas. “E eu gostaria tanto que fosse verdade! O que sei é que os bosques parecem sonolentos no outono, quando as folhas estão ficando castanhas.” 
“Sabe jogar xadrez, Kitty? Não, não sorria, meu bem, estou perguntando a sério. Porque, quando estávamos jogando há pouco, você observou exatamente como se entendesse; e quando eu disse ‘Xeque!’ você ronronou! Bem, foi um belo xeque, Kitty, e eu realmente poderia ter ganho, não tivesse sido por aquele cavaleiro desagradável, que veio se insinuar ziguezagueando entre minhas peças. Kitty, querida, vamos fazer de con…” E aqui eu gostaria de ser capaz de lhe contar a metade das coisas que Alice costumava dizer a partir da sua expressão favorita: “vamos fazer de conta”. Ela tivera uma discussão bastante longa com a irmã ainda na véspera, tudo porque começara com “Vamos fazer de conta que somos reis e rainhas”; e a irmã, que gostava de ser muito precisa, retrucara que isso não era possível porque eram só duas, até que Alice finalmente se vira forçada a dizer: “Bem, você pode ser só um deles, eu serei todos os outros.” E certa vez assustara realmente sua velha governanta, gritando-lhe de repente ao pé do ouvido: “Vamos fazer de conta que eu sou uma hiena faminta e você é uma carcaça!” 
Mas isto está nos desviando da fala de Alice para a gatinha. “Vamos fazer de conta que você é a Rainha Vermelha, Kitty! Sabe, acho que se você sentasse e cruzasse os braços ficaria igualzinha a ela. Vamos, tente, minha fofura!” E Alice pegou a Rainha Vermelha da mesa e a pôs em frente à gatinha como um modelo. Porém a coisa não deu certo — sobretudo, Alice disse, porque a gatinha não cruzava os braços direito. Assim, para puni-la, segurou-a diante do Espelho, para que visse o quanto estava intratável… “e se não consertar essa cara já”, acrescentou, “eu lhe faço atravessar para a Casa do Espelho. O que acharia disso?”
“Bem, se você ficar só ouvindo, sem falar tanto, vou lhe contar todas as minhas ideias sobre a Casa do Espelho. Primeiro, há a sala que você pode ver através do espelho, só que as coisas trocam de lado. Posso ver a sala toda quando subo numa cadeira… fora o pedacinho atrás da lareira. Oh! Gostaria tanto de poder ver esse pedacinho! Gostaria tanto de saber se eles têm um fogo aceso no inverno: a gente nunca pode saber, a menos que o nosso fogo lance fumaça, e a fumaça chegue a essa sala também… mas pode ser só fingimento, só para dar a impressão de que têm um fogo. Agora, os livros são mais ou menos como os nossos, só que as palavras estão ao contrário; sei porque segurei um dos nossos livros diante do espelho e eles seguraram um na outra sala.” 
“O que você acharia de morar na Casa do Espelho, Kitty? Será que lhe dariam leite lá? Talvez o leite do Espelho não seja gostoso… mas, oh, Kitty! agora chegamos ao corredor. Só se consegue dar uma espiadinha no corredor da Casa do Espelho deixando a porta da nossa sala de estar escancarada: é muito parecido com o nosso corredor, até onde se pode ver, só que adiante pode ser completamente diferente. Oh, Kitty, como seria bom se pudéssemos atravessar para a Casa do Espelho! Tenho certeza de que nela, oh! há tantas coisas bonitas! Vamos fazer de conta que é possível atravessar para lá de alguma maneira, Kitty. Vamos fazer de conta que o espelho ficou todo macio, como gaze, para podermos atravessá-lo. Ora veja, ele está virando uma espécie de bruma agora, está sim! Vai ser bem fácil atravessar…” Estava de pé sobre o console da lareira enquanto dizia isso, embora não tivesse a menor ideia de como fora parar lá. E sem dúvida o espelho estava começando a se desfazer lentamente, como se fosse uma névoa prateada e luminosa.